desenrolando maretzki

querida mana, vanda:

nossa gerry parecia ótima anteontem, no lançamento. inteiraça, uma década depois d’eu tê-la visto pela última vez, mal despedidos após alguma sessão de grupo noturno ao qual não mais voltei. mas agora vejo que ela permaneceu transmitindo, o de que é a portadora.

exulto por ela ter conseguido trazer à luz seu livro. ficou enxuto, elegante, denso ainda que leve. estou seco pra botar as mãos (e os pés!). (lembro q revi um pré-esboço-do-rascunho-do-copião q ela me passou pra opiniões, já vai uns dez anos, e q me parecia (como todos os livros interminados) um manancial de conceitos e histórias ótimas enredados numa barafunda indestrinçável. mas isto é já delírio de inferno astral de quem nao consegue finalizar o próprio)

de alguma forma, ela terá sido para sempre minha mestra. lembro de gerry sempre que estou numa caminhada mais longa, quando começo a sentir incômodo num joelho ou na bacia; ouço ela me instigando a soltar a cintura, andar meio q rebolando, deixar o peso cair vergando sobre cada perna que pisa; noto então o quanto andava travando o gingado, e ao deixar rolar, imediatamente as dorzinhas e o cansaço aliviam, parece que recupero o modo nativo da andada, caminho-gingada-meio-samba que ela pregrava como o jeito natural do humano andar, civilizatoriamente reprimido e que os cariocas e baianos tinham mais preservado. o que nunca deixou de ter uma erótica envolvida.

sobretudo lembro-me dela cada vez que alongo pra frente, o tal ‘enrolamento’ da coluna como ela chamava, em pé, pés alinhados e afastados um punho, joelhos levemente destravados, o tronco pendente, meio balançante, as mãos roçando o chão, tracionando toda a cadeia posterior com o próprio peso; ficar nisso, insistindo nas expirações, até encontrar conforto e descanso nesta esdrúxula postura encurvada – e ela tinha razão, há um momento em que o bem estar vem, mesmo dobrado assim, como um arco, como se retornássemos aos fundamentos hominídeos do aprendizado de ficar ereto, que reside nas sinuosidades do eixo articulado. a coluna tinha se desfeito, se liquefeito, desmontada sem tonicidade, pendurada nos ligamentos. CA, pra mim, era isso. depois desenrolar vértebra por vértebra, molemente ir encaixando e estabilizando degrau por degrau, que nem aquela mola que descia escadas da minha adolescência. (inconfidência: costumo fazer este alongamento sob o chuveiro, deixando a ducha quente bater na lombar pra soltar mais, o que bastou para ana impiedosamente batizar este meu hábito de “descida gerry do sabonete” – quase nome de funk).

havia, entre inúmeros outros, um alongamento análogo, mas com a geometria girada, noutra gravidade, que invertia os pesos. deitado no chão, decúbito dorsal, elevava as pernas estendidas para o teto, ficava naquela imaginação de pisar o céu, os pés forçando de flexionados. tinha algo do bebê, tronco e coluna chapados ao solo, membros não pra sustentar corpo mas pra tatear zonzos o vazio do em volta pra cima ao longe. afrouxava os joelhos depois tentava esticar novamente, empurrando o teto, pisando as nuvens. exigia uma força enorme, esticava todas as fibras lá atrás, dava uma dorzinha saudável no lombo, nas coxas. às vezes uma dorzona.

gerry deambulava por entre o grupo, todos de pernas pro ar, de vez em quando vinha em cima de alguém e forçava mais as pernas. quando chegava súbito e punha o seu peso sobre os meus pés, forçando o q me parecia ser além do limite da lesão, eu estrilava. reagi mais de uma vez, cheguei a brigar. achava que ela estava imprudentemente abusando da minha flexibilidade. ela não se fazia de arrependida, saía faceira e ia ‘incomodar’ outro. noutro momento, voltava ela e me espremia de novo, para minha exasperação. (na má-consciência de ofendido, chegava a duvidar da sofrosine, da competência no senso de medida da mestra). passei a temer as sessões de achatar no solo, pisar nas nuvens, pois tempestades, ou pesadas sabichonas, poderiam cair insopitáveis sobre mim.

até hoje, lamento imaginar q acabei me afastando dela um tanto por causa destas ‘decepções’ aborrecidas. por outro lado, hoje, creio que se encontrava neste atrito mesmo a chave para o melhor que a corpo-análise poderia ter me dado (ou chegou a me dar, um tantinho). a oposição entre o conforto descoberto no tronco pendente e o desconforto temeroso das pernas ao ar, inclusive com conotações, mais uma vez, a matrizes da erótica (do bebê e do adulto) – pelo tronco amolecido, a entrega, a ‘retaguarda’ desprotegida (a alusão ao sabonete não foi à toa) e, noutro, os membros eretos, tracionados ao limite das fibras, surpreendidos por outro corpo que sobre eles tenta forçar… é como se tivéssemos deixado de elaborar um achado incômodo e recorrente das práticas elementares de toda sessão que poderiam, sonho, ter-me libertado de quantas couraças atávicas que prendem minhas chances de ‘se deixar estar bem nesse mundo’. uma translação incompleta. como tantas pelaí. qual o livro que eu não soube então ajudar a levar a termo. mas que, afinal, ela soube, e no qual, agora, posso reencontrá-la perenizada um pouquinho.

há uma melancolia própria do ex-aprendiz, uma espécie de amor mal correspondido, que sente que deve ao mestre de outrora de um modo que não poderá retribuir. frequento, no cotidiano, os hábitos aprendidos definitivos com uma imagem mental da voz dela, uma lembrança do seu olhar no momento em que me corrigia. assim, ela será sempre, sempre mestra pra mim. mas ontem percebi que, para ela, eu já não fui seu aprendiz há tempos. escher curl-up é que para mim, cá no pessoal, lá na badalação do lançamento, foi assim meio… enrolado. eu parecia não pertencer àquela rede de gente amiga. gerry não deu a menor bola de nos ver (eu+tom). tá, balbuciou meu nome baixinho logo quando deu comigo, mas como alguém q não esperava ali, que esperava não ali, descartado do folhetim. eu havia ressurgido súbito, e deixado cair todo o meu peso insolicitado sobre seus pés distraídos que andavam em nuvens.

felizmente ela soube, bailarina, escapar célere do constrangimento: voltou-se para receber e ser fotografada junto ao gabeira, que aguardava afoito logo atrás da gente na fila. assim como leão da montanha, saída pela… direita (ué? não era… bem, sabe-se lá). não bastasse esse encontro falhado, o livro já havia esgotado ao chegarmos, de modo que partimos de mansinho e de mãos abanando dessa noite de não-autógrafo. e cheios de vícios de postura, pisando meio torto, com um temeroso formigamento cranio-sacral no mindinho, uma fisgada de vez em quando ali por perto do ombro esquerdo.

resta-me ficar atento pra comprar o livro assim que surgirem mais exemplares. na verdade, num impulso, encomendei logo o meu numa loja da internet. quando chegar, daqui a dois dias, vou deitar-me de costas num chão de madeira, erguer as pernas pro céu e tentar voltar a pisar nuvens. mansamente pousado sobre a planta dos meus pés fletidos, estarei brincando de equilibrar o livrinho dela. tentarei erguê-lo, como um nenê, o mais alto que puder.

longing & uncurling
teu mano, jim

Anúncios
Published in: on 07/07/2010 at 13:49  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://flanelografo.wordpress.com/2010/07/07/desenrolando-maretzki/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: