o chinesinho

Elas estavam contando como eram as suas brincadeiras de boneca. No Fiorentina, no último sábado. Três amigas e eu. Dizem, os habituados a divãs, que as diferenças de gênero começam assim: menina brinca de boneca (“eu quero ser a mãe”), guris brincam com boneco (“eram cinco horas da tarde, mas eles tinham de mergulhar…”). Há, obviamente, inúmeras variações marotas dessa distinção, abusando do que se pode entender tanto por boneca quanto por boneco. De todo modo, se os contrastes correspondem a diferenças entre os gêneros, talvez seja quanto aos diversos gêneros narrativos e dramáticos mais que à dobradiça masculino/feminino. Pois nessas brincadeiras o que está em jogo são nuances nas matinês do circo de pulgas, no teatro particular de títeres e ventriloquia com que todo/a pequenino/a ensaia os limites do faz-de-conta que pode vir a contar-de-fato.
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Após vários depoimentos quanto a peraltices de quintal ou de sótão que em muito extrapolavam o que se entende tradicionalmente por ‘brincar de casinha’, resolvi também descrever algumas das minhas brincadeiras com bonecos: uma turma de uns poucos personagens nanicos, de não mais que uma polegada, pequenos heróis aventureiros, exploradores, que partiam nalguma jornada por regiões desconhecidas, equipados com alguns carrinhos e outras máquinas, trator de esteira à la ‘perdidos no espaço’, aquela bússola de grudar no parabrisa do carro que Tijão me dera, com uma ventosa que se transformava, imagine, numa superpotente antena parabólica, as entranhas de um radinho de pilha quebrado (isso eu não lembro de usar, mas foi o que disse na mesa, pois servia bem ao espírito da coisa). A expedição logo acabava se estabelecendo em um acampamento organizado, um perimetro sob controle, onde todos aqueles aparelhos eram expandidos e articulados, e ficavam emitindo (por prazerosa ventriloquia) um monte de ruidos, chiados, retumbâncias: o campo de forças (zvaam), as parabólicas de comunicaçao (twiing), os raios magnéticos concentrados em algum experimento com amostras colhidas no local e confinadas no meu laboratorio de campo (wa-wa-wa-wa), etc.
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Alguém indagou se eu brincava sozinho. É… na verdade não. Meu irmão mais novo costumava brincar em paralelo, com sua própria trupe de heróis, capitaneada por uma bonequinha de pano, sem cabeça, imunda de tanta manipulação, a ‘chinesinha’. O chato é que a história que se desdobrava com a turma dele sempre me parecia mais interessante que a minha. Criança é fetichista, já dizia o velho Roquette. Na época eu atribuía o mérito ao carisma inerente da própria bonequinha. Era ela que era um brinquedo mais legal. Não deixei de encompridar inveja – afinal, por que Tia Conchita não dera o bobo ursinho de Hong Kong pro Tom e não deixara a exuberante e poderosa chininha pra mim? Era uma questão de aura, a força estava com ela. Acreditava que dela emanava espontaneamente todo aquele espirito de aventura e criatividade. Meu irmão apenas a obedecia, acompanhava, felizardo, o seu pique. Mas hoje, nessa mesa de bar do Leme, recordando brincadeiras infantis com essas gurias crescidas (“mostra primeiro o seu que eu mostro o meu”), reconheci que, na verdade, em se tratando de brincar de ficção aventurosa, o manel era bem mais corajoso e desapegado que eu, sempre buscando a exploração (a invenção!) de um horizonte incerto, inusitado, mais adiante.
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Enquanto eu tendia a me enquistar naquele acampamento sedentário numa noite que não tinha mais fim, municiado de equipamentos tentaculares de sondagem e detecção de tudo que pudesse se aproximar, ao pé de uma das faces da poltrona – o que acabava monotonamente esgotando os recursos da fantasia aquém da linguagem na infindável repetição das onomatopéias “zwaam-twiing-wa-wa-wa-dzoing” -, alguns palmos adiante, na outra face do móvel, os personagens do grupo vizinho se empenhavam em escalar a escarpa daquela estranha montanha com forma de poltrona, e logo se espalhavam a investigar frestas e dobras do estofamento que se revelavam em outras tantas cavernas, cânions, passagens secretas, indo intrepidamente em busca de encontros com outros personagens ainda não previstos, caipiras, eremitas, andarilhos, ainda que correndo o risco de se deparar desarmado no caminho com algum monstro.
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Falando a linguagem dos quadrinhos: se tomarmos a coleção de Tintins como cânon, o modelo das minhas narrativas era o dos infindáveis preparativos para a viagem à Lua. Quanto ao Tom, ele já partira sem titubear pro Tibete, atendendo ao chamado enigmático do sonho com um amigo oriental desaparecido, que conhecera no Lotus Azul, um tal de Tchang. O chinesinho.
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Para Antonio

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[PS.] Passados seis meses, recebi uma carta resposta: [ CHINEIZINHA ]

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Published in: on 21/12/2009 at 04:41  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Jim meu brod
    vc é incrível ao descrever momentos de infância fui lá pro carro do pai e vcs brincando com aquela coisa imunda, fedorenta e adorada
    das disputas
    lembro tb do meu Gigio que idem era amado mas chato pra caramba e cheio de frescuras
    adoro ver sua forma de descrever momentos
    tu escreve bem em cara
    muitos beijos procê
    valeu lembrar dessas passagens

    • é mesmo, vc inventou aquele esquema do gigio (dídio, como a gente falava) “espírita”: ele encarnava na sua fofíssima mão direita, os metido e médio como pernas, e – haja imaginação! – os nódulos ossudos da sua articulação metacarpiana como bochechas. o cara enchia o saco de qualquer um, mas a nossa reação era de um sadismo amoroso constrangedor: a gente agarrava seus dedos num bote e tacava-lhes um chupão sufocante que beirava o assassinato. mas bastava você soltar aquele som explosivo dos lábios – uma corruptela de pum – que sabíamos que ele tinha “evaporado”. quando conseguia libertar a mão, havia tb um gesto mágico – ela se abria como no estouro de uma bolha de sabão – que confirmava que o entezinho havia abandonado o “cavalo” e frustrado nossa captura. para reaparecer logo adiante, zombeteiro como um saci, azucrinando nossa paciência e desejo.

      • Jinzão me diverti muito ao lembrar cenas tão infantis
        o didio chato e que sumia sempre com o ataque tarado docês … foi delicioso lembrar
        gosto de ler seus escritos detalhados
        vejo as cenas descritas como se fosse ontem
        beijos meu querido irmão


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