bestiário anfíbio do sertão da bocaina

/08.dez, 5º dia/ Acordei já cansado, pouco dormido, devendo páginas. Vou buscar um texto na mala arquivo, o de Margaret recontando dos feminismos de Bertha. Na lateral da mala, a meio curso do topo, noto uma massa aderida. Como uma enorme verruga carnosa, irregular, cor de tripas ou miolos, com duas polegadas de diametro. Raspei fora a lesma na varanda, e desinfetei a mala esfregando papel higiênico embebido em brandy. Quanto às bananas, que mantinhamos na murada do banheiro, amanheceram com fartos tufos de fungos cabeludos nas extremidades.

Tão úmidas estas paragens, de chuvas quase ininterruptas, que arrisca acordarmos um dia e descobrir que estamos nos transformando em anfíbios, híbridos como aqueles marinheiros do navio fantasma de piratas do caribe: encontrar um esboço de ventosa se instalando no cotovelo, germes de cogumelo ensaiando brotar entre os artelhos, musgo às vezes de barba sob o queixo.

O dia correu produtivo sem mais, a mesinha arrastâmo-la pra varanda, onde lemos variedades tomando notas. Mas após o almoço, e para evitar se entregar ao sono atrasado, arriscamos, com alguma imprudência, dar uma volta na mata. Capas improvisadas de saco de lixo de cem litros e um bom gole de whisky de milho, partimos em intrépida expedição ao alto da torre de transmissão. Duas horas de caminhada subindo e descendo sob chuva e lama, para encontrar o umbral litorâneo da serra, enxergar a baía de ilha Grande e alcançar sinal de celular. Passamos bem uma hora falando com os filhos e trocando os imeios imprescindiveis. Quando noto já são sete. Só mais uma hora de luz e ainda todo o percurso de volta a enfrentar. Fora frio, chuva, pés enxarcados, fadiga. Disparamos sem mais pudores de enfiar os sapatos nas poças ou na água dos riachos a cruzar, só parando nos cruzamentos de caminhos para tomar um gole do velho jack e saudar augúrios.

Alcançamos o açude a quinze minutos do breu completo. Salvos, já preparando pro banho e se reaquecendo. Venho à varanda nu para pegar um pouco de lenha no cesto, a chuva soberana a toda volta, acendo a luz. Súbito farfalhar, mergulha num vôo cego vindo da noite, algo negro se choca contra a face interna do meu braço. Largo a lenha, me sacudo todo e entro afobado, bato a porta. Que seria? Morcego não esbarra cego; mariposa? Mas teria de ser um colosso de inseto, e negro… Reabro uma fresta e volto cauteloso à varanda. Um movimento, farfalhar se debatendo, o bicho está na parede, no alto, junto às telhas. Escuro, alongado, aderido à vertical da parede grená. É um passarinho. Um adorinhão do temporal, ou então um da capa cinzenta. Como aqueles do Iguaçu. Deve ter-se perdido com a escuridão e a chuva. Esse pássaro é a gente caso tivéssemos nos demorado demais.

/09.dez, 6º dia/ Pela manhã já não o encontro. Deve ter voltado para o seu mundo à primeira luz. No chão, bem sob o sítio onde ele se abrigara, os meus sapatos de caminhada, enxarcados, que deixara virados a escorrer. Sobre um deles, tangente, uma generoso borrão branco de guano.

(Dois provérbios: um andorinhão só não faz verinho; o outro esqueci)

Hoje, novidade, choveu o dia inteiro, e a temperatura caiu de vez. Passamos no chalé, à  mesa de estudos, com a lareira acesa direto. Foram-se duas caixas de lenha – ainda bem q o zé veio repor.

Quando a tarde ia se acabando, ana tava fumando sentada na varanda, ouço uns sons estranhos. Era ela, dando uns estalos com a língua. Tentava imitar a variedade do concerto de sapos que dominara o mundo no crepúsculo. Era só o que faltava. No dia em que chegamos, prestavamos atenção na diversidade da cantoria dos passarinhos, treinando reconhecer as espécies. Passada uma semana, ana já sabe falar pererequês!

[imeio de 11.dez]

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Published in: on 11/12/2009 at 15:41  Deixe um comentário  

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