querido pequeno gomo de tangerina

Oi. Vc acordou com a corda toda hoje, hem mami? Andava encasquetado com essa brincadeira das filipinas, pois mencionara em círculos amigos e ninguém conhecia. Comecei a suspeitar que tinha sido vc que inventara, ou era particularidade da sua casa de quando pequena.

Uma busca na web logo provou o contrário. Há várias entradas, apesar de muito irregulares. A maioria pareceu ser de blogs portugueses. Uma página mencionava que era de origem hispânica. Outra, bem brasileira, acrescentava que era costume aplicar a brincadeira no natal, quando, ao quebrar a casca, se encontrava amêndoas ou avelãs gêmeos.

Parti pros dicionários, onde, para minha surpresa, está lá consignado. E o termo vem do alemão, com significado que só me fez achar tuas apoquentações a coisa mais carinhosa do mundo. Senão veja:

AURÉLIO:
[Do al. Vielliebchen, ‘bem-amada’, pelo fr. philippine.]
Adj. (f.)
1.     Diz-se da amêndoa de caroço duplo, e de frutas inconhas, as quais, partilhadas entre duas pessoas, dão àquela que no primeiro encontro se referir ao fato o direito de reclamar da outra um presente.
S. f.
2.     Essa amêndoa.
3.     O presente relativo a esse costume.
4.     Esse costume.
HOUAISS:
n substantivo feminino. Rubrica: ludologia.
1    desafio, brincadeira entre duas pessoas que, depois de repartirem os dois caroços que casualmente encontram na amêndoa ou em outros frutos, ao se encontrarem em outra ocasião, devem saudar-se de imediato usando a palavra filipina, ganhando aquela que primeiro o fizer
1.1    Derivação: por metonímia.
a amêndoa ou outro fruto us. neste desafio
1.2    Derivação: por extensão de sentido.
a prenda ocasionalmente paga àquele que venceu o desafio
Etimologia:
ger. ligado ao fr. philippine (1869) ‘jogo social, jogo em geral’, p.ext. ‘o que é duplo ou gêmeo, fruto inconho ou duplo’, alt. do al. Vielliebchen ‘bem-amada’ sob infl. do antr. Philippe

E já que eles dizem que vem do alemão via o francês, fui procurar no Petit Robert:

PETIT ROBERT:
philippine [filipin] n. f.
• 1869; altér., sous l’infl. de Philippe, de l’all. Vielliebchen [filipGBn] « bien-aimé »
• Jeu où deux personnes, après s’être partagé deux amandes jumelles, conviennent que la première qui dira à l’autre Bonjour Philippine, après un délai convenu, sera la gagnante. Faire philippine avec qqn.
• Adj. Amandes philippines, jumelles.

É, portanto, jogo tradicional de ampla disseminação. Por outro lado, fiquei com a impressão de que o pretexto do gominho de tangerina anão, espremido e desalinhado no seu grupo, é invenção exclusiva da nossa família. Mais um sinal de que a tangerina, desde pequerruchos, era uma fruta cheia de significados lá em casa. Não falo nem do pomar atrás da casa, na fazenda, que deu pretexto nobre para pegar em armas, defender os pobres pés de bergamota dos abusados pardais, oportunidade única de um moleque legitimamente manejar uma espingarda e treinar a temível (e, no meu caso, sofrível) arte do tiro ao alvo.

Falo dos elaborados hábitos de devoração, anteriores a qualquer pomar. Eu, p.ex., desenvolvi técnicas e manias várias em relação à mixirica, algumas que mantenho automáticas até hoje, como descascar com cuidado para preservar todo um hemisfério da casca íntegro (de preferencia o sul, oposto ao umbigo), de modo a poder usá-lo como pratinho onde cuspir os caroços; tb se adquire toda uma semiologia capaz de, antes de atacar o fruto, avaliar se está furado e já contem bicho vivendo nas entranhas, pra nao enfiar de cara o dedão num eca podre. Outra mania de certa fase era retirar todos os cabelinhos grudentos de cada gomo antes de comê-lo; ou ainda o de morder o umbigo do gomo, sugar fora os caroços, depois eventrá-lo ao avesso, expondo aquela manta de “garrafinhas de puro sumo” (como as chama, nalguma passagem nunca esquecida, Monteiro Lobato, talvez a respeito de laranja) e assim esmagá-las diretamente com a língua. ah…

Como a tangerina, acho que talvez só o careteiro cajá-manga chegou a desfrutar de um status assim tao elaborado nos costumes familiares. Alguém vai querer um pedaço?

jim
Vilasy escreveu:
Assunto: GOZAÇÕES ESPECIAIS DA MAMI PARA APOQUENTAR O FILHO

QUERIDO FILHO:
BOM DIA, FILIPINA!

ASSIM NÃO DÁ. ASSIM NÃO PODE.
DEIXAR A VELHINHA GANHAR SEMPRE DÁ NA VISTA.
É MUTRETA.
BEIJIM,
MAMI
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Published in: on 01/09/2009 at 10:56  Comments (1)  

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  1. […] uma origem Francesa ou Germânica. Não se pode concluir, contudo, se a proveniência é Françesa (philippine) ou Alemã (vielliebchen) porque os respectivos dicionários remetem para a origem no outro […]


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